Blue in green

Wavesfactory · Mercury - Blue In Green (Miles Davis)

A noite caia pesada como chumbo sobre sua cabeça. No cais, à espera de Penélope, observava a dança das luzes da cidade refletidas na água.Pensava nas desilusões que a vida lhe trouxera e como aquela mulher havia penetrado fundo no seu coração; como era serena aquela paixão, como se assemelhava a “Blue in Green” que outro dia tivera a felicidade de ouvir no Café Solano.

O cheiro da noite, o frio da madrugada e a espera; o último cigarro ainda queimava entre seus dedos e novamente aquela melodia. Intrigava-lhe a maneira como ela entrou na sua vida.

O último cigarro ainda queimava entre seus dedos e novamente aquela melodia. Intrigava-lhe a maneira como ela entrou na sua vida. Um táxi em plena avenida frenética numa tarde de verão. Os prédios refletiam a intensa luz do sol e do lado oposto da rua: cabelos ao vento, sorriso pleno, decote generoso, mas comportado, quase sincero. Não tomou o táxi, correu como um louco entre os carros para acompanhá-la. Numa disputa enlouquecida e unilateral com os transeuntes que caminhavam à sua frente, apostava com um depois do outro, pontos de chagada determinados pela proximidade com ela. Era uma maneira divertida de vencer terreno e se aproximar do alvo. Podia vê-la chegando, podia sentir o seu perfume mesmo embaralhado nos diversos cheiros da rua naquela tarde.

Enquanto se aproximava, cada vez mais rápido, pensava se devia falar-lhe, contar da sua paixão imediata, das loucuras que seria capaz de fazer para lhe agradar, das noites incontáveis de amor e vinho. Penélope caminhava como quem avança para os braços do primeiro amor. Dir-se-ia que flutuava sobre sua felicidade. Não pisava as pedras portuguesas da calçada e ele estava ali, do seu lado, calado, olhando de vez em quando para merecer um sorriso que não se apagasse quando ela, por fim, se voltasse para ele.

O néon meio apagado e avermelhado do bar se avolumava através da chuva fina e Penélope não chegava. O som estridente da rotina policial podia ser ouvido misturando-se ao trompete de surdina que vagava sonolento na bruma do cais. Atirou o cigarro na poça à sua frente e dobrou a esquina à sua frente. Fez todo o trajeto em silêncio: o carro veloz deslizando no asfalto molhado, o prédio branco, a sala de espera, o corpo. Um vulto vagou perdido, quase invisível diante das luzes das vitrines vazias até perder-se na escuridão.

No bar da esquina que acabara de dobrar tocava Blue in Green, onde muitas Penélopes iluminavam o ambiente como notas musicais na noite fria.

Sérgio Araújo, 2018

O velho professor

Potato Unicorn · Gymnopédie No. 1 - Erik Satie - 2 HOURS Classical Music For Studying

Destacava-se suspenso nos ares como uma janela para o passado. Liberto das agruras do tempo em sua carne, o rosto impecável em óleo sobre tela, parecia alegrar-se com o olhar mais atento do visitante curioso. A seus pés, uma pesada mesa de jacarandá reluzente de óleo de peroba, suportava velhos maços de papel, um porta lápis de metal prateado e uns poucos livros encadernados à moda antiga, com letras douradas em papel escurecido.

Teve o seu tempo. Fertilizou-o com suas letras envergadas pelo peso dos sentimentos e, acolá, esvoaçantes como um bando de serenatas ao luar. Construiu versos bêbados, outros encantados e sonoros como o dedilhar das cordas de um violão numa melodia vaga e veloz.

Ele sabia e repetia para quem o pudesse ouvir que o tempo é uma agulha arteira e tece com eficácia o texto dos dias. O velho professor sorri de soslaio e acena imperceptível para os olhos incautos dos visitantes. Naquela sala, o antigo divã roça seus fios arrepiados pelo desgaste, no pé-direito que se ergue solene em grossa camada de tinta azul entrecortada pelas estantes robustas que transpiram leitura, conhecimento em forma de nuvens de palavras, que ainda circulam alterosas pelo ambiente.

Teria sido em São Petersburgo, naquele passeio, do lado direito da Nevski, olhando as belas vitrines numa tarde de verão? Ah! Sim. Com certeza! A paixão foi fulminante e nada nem ninguém poderia tirar-lhe das mãos, aquele livro. Daquele encantamento, brotaram versos e prosas que encheram páginas e mais páginas do seu caderno de capa dura.

O velho professor que agora sustenta um sorriso matizado percorreu mundos e destrancou portas; modernizou-se nos bulevares de Paris. Em seus intensos devaneios, ele percorreu os meandros dos edifícios populosos de Praga para desvendar os mistérios das Moiras.

Se pensas que o pote estava cheio a derramar palavras como a banheira de Arquimedes, estás enganado, meu caro amigo. Aquele velho didata sabia que, como as areias do Saara, o conhecimento não tem fim. Deleitava-se a recordar blowup e aquela cena; não, não era uma cena de cinema, mas uma obra de arte; uma hélice enclausurada no enquadramento em preto e branco; luz e sombra.

Vez por outra, matava a sede revisitando séculos, passeando pelos jardins da Academia e sentando-se à mesa com Sofia, a bela dama, sempre espantada diante da simplicidade mas, carinhosa, em cujo colo suspirou olhando a noite estrelada, sem respostas.

Estava tudo ali, para quem quisesse ver: as histórias, as memórias e, mais que tudo, aquele metasorriso. É isso mesmo! Um metasorriso, um sorriso em si mesmo, encharcado de orgulho intelectual que a modéstia resguardava ante a imprecisão das opiniões alheias.

Desbravador implacável, exímio conhecedor dos caminhos nas estepes; saltador de montanhas e explorador de florestas tropicais. Por onde quer que andasse a imaginação dos poetas, lá estava ele, crítico mordaz, doce agnóstico a comover-se diante da beleza.

Suspenso estará sempre, nos ares, como as nuvens a apreciar contente a gente que ali aprende e que, como ele em sua infância, sonha um dia saber as respostas escondidas nas coisas e admira aquela figura suspensa, retratada em cores sóbrias.

O velho professor, que não morre nunca, pois sobrevive não apenas na memória dos aprendizes, mas nos sonhos que brotam dos poetas.

Sérgio Araújo, 2018

Upload

jaycunt · Pink Floyd- Echoes

Sentado em frente ao monitor com os olhos fixos no centro da tela esperando algo ou alguém, absorto. Só, em sua inutilidade semanal, não percebeu a vigilância fria e panóptica da Webcam que penetrava em seu corpo como um raio-X e, sondando os seus mais remotos pensamentos, impingia-lhe uma alienada exposição.

– Alô! – rompendo o silêncio – uma voz aveludada, um sussurro de fêmea etérea.

Como quem desperta de um sono profundo, foi, aos poucos, se acostumando com o ambiente nebular do display até sentir o impacto das mãos com o teclado, abaixo.

Digitou alguma coisa, sem nexo, meio parecido com o vernacula utopiensium e virou-se em plano médio americano procurando a webcam que, agora, deslizava tranquilamente num ângulo de 180º.

– Alô – repetiu a voz etérea. – Alô senhor! Favor digitar seu username e password enquanto confirmamos o contato visual. Lembramos: esta fase do processo é muito importante para preservar o link enquanto fazemos à transliteração dos dados. Aguarde, por favor.

Atordoado, ele tentava corresponder às exigências da máquina enquanto se maldizia por não ter lido os “Termos de Uso” e a “Política de Privacidade”, agora era tarde, o dedo ágil digitara as últimas letras da senha resvalando num clic instintivo para enviar.

Enquanto aguardava novas instruções minimizou a janela do Player e pôs-se a observar atentamente o caos alfanumérico que enchia a tela e contornava um pequeno campo retangular, quase um banner oco, revelando o branco excessivo do cristal líquido.

– Agora, senhor, por favor digite uma frase qualquer para que possamos iniciar o download – carinhosamente pedia aquela voz serena que, de maneira alguma podia ser uma gravação dessas que existem aos montes nas telecomunicações.

– Mas que raios de frase eu devo escrever? – pensou! Estendeu os dedos sobre o teclado e permaneceu nessa posição até que, como um relâmpago, cortando os seus pensamentos desordenados, surgiu: ” o que você quer de mim?” Então, com os dedos pesados de ansiedade, digitou. Voltou os olhos para o monitor que parecia mais Gaussian Blur do que estava antes.

– Senhor? Agora permaneça imóvel para possibilitar uma melhor performance do scanner.

Pela primeira vez, enquanto permanecia congelado numa pose de 3×4, irritou-se com aquela situação. Afinal, o que queriam com ele? Não bastavam os updates daquela semana? Acaso não teria solucionado os problemas de instalação do novo pack? Não teria reportado aquele bug? Nada parecia estar “batendo”.

– Senhor? The key, the end, the answer!

Foi então que entendeu tudo aquilo. Claro, só podia ser o sinal que esperava. Imediatamente iniciou o upload a partir das memórias mais remotas da sua vida que agora eram transmitidas através de um raio caleidoscópico para a ávida lente da webcam que se aproximava num zoom ótico.

Sérgio Araújo, 2018

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